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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SESSÃO 3 ALEMANHA, ANO ZERO


ALEMANHA, ANO ZERO (1948)

Terceiro filme do tríptico da guerra, “Alemanha, Ano Zero” passa para o outro lado do conflito. Depois de percorrer as feridas da Itália, em “Roma, Cidade Aberta” e “Libertação”, Rossellini vai observar a Alemanha, depois da derrota. Normalmente, a História é contada pelos vencedores, aqui Rossellini está igualmente do lado dos que acabaram de ganhar a guerra, mas está interessado em ver como se vive na Alemanha destroçada, arruinada, moribunda. Não é um projecto habitual. Sobretudo na perspectiva deste cineasta, que não está interessado em mostrar os assassinos no seu habitat devastado. Rossellini procura mostrar o drama que se vive em Berlim logo a seguir à derrocada. O drama físico, as casas esventradas, a falta de alimentos, de medicamentos, de todos os bens de primeira necessidade, mas também o drama moral, psicológico, as feridas internas que uma ideologia patológica instalou na sociedade, levando-a à loucura e prolongando os seus efeitos para lá da derrota.
Saltando as fronteiras, Rossellini não abandona o seu estilo de cinema, ainda que em “Alemanha, Ano Zero” exista um pouco mais de ficção do que nos dois títulos anteriores. Surge essencialmente um protagonista que leva o filme de início a fim, e que se oferece como estrutura central da obra: o pequeno Edmund, um miúdo louro, típico representante da raça ariana, doze anos sobrecarregados de responsabilidade e investido de uma ideologia que lhe impregnou a carne, mas de que ele desconhece obviamente as consequências (apesar de ter os seus efeitos bem reflectidos ao seu redor). O velho pai está acamado, sem poder ajudar a família, e desejando que a morte o leve. O irmão mais velho esconde-se num quarto interior, com receio de que o facto de ter pertencido às forças armadas nazis o incrimine. Uma irmã sobrevive com dificuldade, e Edmund faz pela vida nas ruas arruinadas de uma Berlim apocalíptica. Um professor encontra-o e põe-no a render no mercado negro, vendendo o que pode, mesmo que sejam discos com discursos de Hitler que, reproduzidos no meio dos destroços, assombram o presente com esses ecos do passado. São, aliás, ecos do passado que Rossellini capta, alguns dos quais se reflectem nos rostos e no íntimo desses jovens industriados para o horror.
Intercalando a ficção com imagens de actualidades, buscando essa autenticidade sem retoques que é apanágio do seu cinema, o cineasta colhe planos de uma dureza assombrosa que resulta da própria realidade não manipulada e que se impõem por essa autenticidade sem mácula. O registo é invulgarmente impactante pela sua crueza.
Depois há o segredo de Rossellini a observar o jovem Edmund, oscilando entre a pureza do seu rosto de menino e a impressionante gravidade de algumas expressões que o levaram precocemente à idade adulta. Aquela é uma criança que a vida violentou, a que foi retirada a alegria de uma brincadeira, de um jogo da bola, de uma meiguice materna. Ele foi lentamente transformado numa máquina de sobrevivência, no “homem da família”, com os valores adulterados pela necessidade, com as emoções embaciadas e aturdidas. Um momento de reflexão mais doloroso leva-o à decisão drástica que marca as derradeiras imagens deste “Ano Zero”.
Raras vezes um filme consegue ser assim tão impressionante e duro. Na maioria das vezes, o cinema mostra-se “ficção”, encenação, e o espectador reage em função dessa realidade que sabe ser espectáculo. Rossellini, que todavia também “encena” e “ficciona”, apesar de se basear em factos mais ou menos verídicos, ao que consta, consegue tornar “actualidades” essas imagens. A descrição da vida quotidiana nessa Berlim destroçada de meados da década de 40, é de uma autenticidade arrepiante. As casas superpovoadas, a prostituição, os pequenos roubos, a luta pelos mantimentos mais essenciais, as discussões sobre a forma mais económica de enterrar um cadáver, e de se aproveitar cada bem desse defunto que já não precisa de botas nem de camisa, tudo isso é de uma plausibilidade que desarma. As viagens de Edmund pelos escombros de uma cidade esventrada são a desolação extrema, a abjecção impossível a que a condição humana pode chegar. Nas primeiras imagens do filme, Edmundo cava sepulturas num cemitério. É o trabalho que consegue. Há quem diga que não é trabalho para a sua idade, mas o dilema coloca-se logo a seguir: sem aquele trabalho, como sobreviver? Roubando, necessariamente.
Depois há ainda a notar que o realizador parece olhar sem julgar, deixando essa avaliação para o espectador, que se confronta com os factos sem o auxílio de qualquer juízo prévio. Rossellini mostra, foi assim, é assim. O julgamento fica reservado ao público. Uma aposta incómoda. Esse o cinema de Rossellini, que não faz filmes para entreter, mas para serem úteis, ele próprio o escreveu.
A obra surge dedicada a Romolo Rossellini, primeiro filho de Rossellini, desaparecido muito jovem num acidente, o que terá angustiado profundamente o cineasta, levando-o a atravessar um período de um niilismo sem esperança. “Alemanha, Ano Zero” é também o resultado desse doloroso percurso, onde a culpa de sobreviver parece habitar cada personagem. Muitos cineastas posteriores devem a “Alemanha, Ano Zero” inspiração, de Truffaut a Andrei Tarkovsky, de Ingmar Bergman a Wim Wenders, de Víctor Erice a Abbas Kiarostami, para só citar alguns.

ALEMANHA, ANO ZERO
Título original: Germania, Anno Zero

Realização: Roberto Rossellini (Itália, França, Alemanha, 1948); Argumento: Roberto Rossellini, com colaboração de Carlo Lizzani, Max Kolpé, Sergio Amidei, segundo uma ideia de Basilio Franchina; Produção: Roberto Rossellini, Salvo D'Angelo, Alfredo Guarini; Música: Renzo Rossellini; Fotografia (p/b): Robert Juillard; Montagem: Eraldo Da Roma; Direcção artística: Piero Filippone; Direcção de produção: Marcello Bollero, Alberto Manni, Alfredo Guarini; Assistentes de realização: Max Kolpé, Carlo Lizzani, Franz von Treuberg; Som: Kurt Doubrowsky; Companhias de produção: Tevere Film, SAFDI, Union Générale Cinématographique (UGC), Deutsche Film (DEFA); Intérpretes: Edmund Moeschke (Edmund), Ernst Pittschau (o pai), Ingetraud Hinze (Eva), Franz-Otto Krüger (Karl-Heinz), Erich Gühne (o professor), Heidi Blänkner (Frau Rademaker), Jo Herbst (Jo), Barbara Hintz (amiga de Eva), Christl Merker (Christl), Gaby Raak, Inge Rocklitz, Hans Sangen, Babsi Schultz-Reckewell, Franz von Treuberg, etc. Duração: 78 minutos; Sem estreia comercial, nem distribuição (DVD) em Portugal.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SESSÃO 2: LIBERTAÇÃO


LIBERTAÇÃO (1946)

“Paisá” é o segundo título dedicado à “trilogia da guerra”, na qual Roberto Rossellini vai olhar a Itália ainda ocupada, mas em vésperas da libertação. Depois de “Roma, Cidade Aberta”, de 1945, e antes de “Alemanha, Ano Zero”, de 1948, este “Libertação” assume uma estrutura aparentemente invulgar, mas que de certa forma se integra plenamente no estilo e no tom usado pelo cineasta. Não se trata de uma história dramaticamente estruturada (já “Roma, Cidade Aberta” não o era, privilegiando a crónica, de apontamentos dispersos), mas de várias pequenas crónicas com alguma ordem interior a uni-las: todas se passam durante os últimos tempos da ocupação nazi (nos anos de 1943 a 1945), quando as tropas norte-americanas subiam já pela península transalpina, desde o sul, onde haviam desembarcado, com rumo ao norte, e cada episódio encontra uma lógica junto dos outros: a progressão é cronológica, do primeiro apontamento, mais antigo, para o último, mais recente, e essa progressão é igualmente geográfica, desde a Sicília, ao sul, durante o desembarque, até ao delta do rio Pó. São anotações que relatam acontecimentos protagonizados por indivíduos ou grupos sociais e que estão associados sempre a feitos, não direi heróicos, apesar de muitos o serem, mas de uma banalidade extraordinária, onde a condição humana é simultaneamente exaltada, mas igualmente vista pelo prisma contrário (conforme se olhe a opressão ou a luta pela libertação). Rossellini não elege igualmente um grupo humano como especialmente merecedor de encómios, tratando por igual o resistente comunista e o sacerdote católico, o miúdo da rua ou a mulher do povo. Também neste aspecto, “Libertação” prolonga o olhar humanista e simples de “Roma, Cidade Aberta”, marcando uma posição moral perante a Humanidade e a forma multifacetada como esta se expressa.

O argumento teve a colaboração de Alfred Hayes, Annalena Limentani, Sergio Amidei, Vasco Pratolini, Federico Fellini, Marcello Pagliero e Roberto Rossellini. Cada um dos seis episódios aparece isolado por um fundo negro, após o qual se integram algumas actualidades da época, o que confere à totalidade um tom documental muito caro a Rossellini. Digamos que as pequenas ficções prolongam harmoniosamente as imagens reais que para trás ficam, e as situam. Uma voz off completa esse enquadramento histórico. 

I. Sicília. 1943, as tropas norte-americanas desembarcam e um grupo de militares tenta chegar ao seu destino evitando os terrenos minados pelos nazis. Numa aldeia, Carmela, uma jovem italiana é “escolhida” para os guiar até junto das ruinas de um castelo que domina a região. Durante a noite, um soldado, Joe, é encarregue de ficar junto de Carmela, vigiando-a. Da desconfiança inicial, passam às confidências, perante as dificuldades da língua diferente. Uma bala de um alemão colhe Joe, Carmela é feita prisioneira pelos nazis que a tentam violar. Quando os outros norte-americanos chegam ao local, descobrem o corpo de Joe e imaginam a traição de Carmela, que todavia teve sorte bem diferente. Equívocos da guerra.

II. Numa Nápoles já libertada, onde se instalaram tropas norte-americanas, o caos social impera. As crianças tentam sobreviver através de todos os meios, entre os quais o roubo. Um miúdo encontra um soldado negro, completamente bêbado, a quem rouba as botas. Este, que trabalha para a polícia miliar, irá reencontrá-lo, desta vez a tentar roubar mercadoria de um camião. Capturado o jovem, este conduz o militar a um bairro miserável onde diz habitar e onde afirma encontrarem-se as botas roubadas. Mas tudo não passa de traumática imaginação do miúdo, cujos pais foram mortos durante os bombardeamentos. E as botas não são as daquele soldado. Equívocos da guerra.  


III. Subindo até Roma, vamos entrar na capital no dia em que esta é libertada pelos soldados aliados (6 de Junho de 1944). Francesca é uma romana jovem que acolhe um soldado americano em sua casa. Há, de um lado e do outro, olhares de pureza e de agradecimento. O soldado irá partir e voltar, meses mais tarde, e não reconhece Francesca, agora adaptada ao estilo de vida dos sobreviventes, que vendem o corpo para assegurar a vida. Num quarto de pensão particular, ela ouve as recordações amorosas desse solado que ficara preso pela imagem dessa Francesca que já não existe. Ou que existirá camuflada pelas necessidades? Francesca larga o soldado adormecido no quarto e deixa-lhe igualmente um bilhete com a morada da “anterior” Francesca. Mas o soldado acorda, amachuca o papel com a “morada de uma prostituta” e parte. Equívocos da guerra.  

IV. Florença é palco de batalha, rua a rua. Hariet, uma enfermeira americana, parte com um amigo, Massimo, que quer regressar a casa, para atravessar a cidade e chegar junto de Lupo, um pintor que se tornou chefe da resistência local. Depois de peripécias várias e perigos inumeráveis, depois de se cruzarem com um fleumático e entusiasta veterano da I Guerra Mundial que observa a guerra do alto do seu terraço, identificando cada munição que explode, Harriet e Massimo conhecem a sorte de Lupo, da boca de um moribundo que expira recolhido nos seus braços.

V. Na região da Emília-Romanha, onde a guerra ainda permanece acesa, um mosteiro recebe a visita de três capelões militares americanos. Mas dois deles são tidos como “no mau caminho”: um é protestante, o outro judeu. Trocam-se mantimentos, e os frades lembram aos americanos que o convento foi criado há mais de 500 anos, “antes ainda de Colombo ter descoberto a América”. Entre os alimentos racionados e a deliberação de “guiar ao bom caminho” os capelães “desviados”, tudo acaba na necessidade de se respeitarem as crenças de cada um.  

VI. No inverno de 1944, na região do delta do Pó, os corpos dos resistentes fuzilados pelos nazis boiam nas águas do rio, enquanto nas margens alemães e resistentes italianos e americanos trocam fogo. Um grupo tenta captar e sepultar condignamente mais um cadáver de um “partigiani”, quando é aprisionado pelos nazis, que liquidam sumariamente os italianos como “terroristas” e tratam os americanos como “prisoneiros de guerra”. Um americano revolta-se e sofre a mesma sorte dos italianos.

Ao longo destes seis episódios, que correspondem a uma outra “viagem por Itália”, no tempo e no espaço, volta a perceber-se a opção de narrativa de Rossellini. Longe das grandes ficções melodramáticas, perto dos homens comuns, não exaltando a narrativa através de qualquer tipo de efeito ou redundância, usando uma interpretação neutra, recorrendo essencialmente a actores não profissionais, tentando surpreender fundamentalmente as emoções no seu estado puro. Obviamente que o filme transborda de emoção, que se sente em cada plano a tragédia de Itália e do seu povo, que a dor marca os olhares e os gestos, que o heroísmo espreita a cada esquina, mas tudo decorre em serenidade e justeza. Um belíssimo filme que, depois de “Roma, Cidade Aberta”, lança internacionalmente Rossellini, o neo-realismo e o cinema italiano do pós-guerra.  


LIBERTAÇÃO
Título original: Paisà
Realização: Roberto Rossellini (Itália, 1946); Argumento: Sergio Amidei, Klaus Mann, Federico Fellini, Marcello Pagliero, Alfred Hayes, Vasco Pratolini, Rod E. Geiger; Produção: Rod E. Geiger, Roberto Rossellini, Mario Conti; Música: Renzo Rossellini; Fotografia (p/b): Otello Martelli; Montagem: Eraldo Da Roma; Direcção de produção: Augusto Dolfi, Ugo Lombardi, Alberto Manni; Assistentes de realização: Eugenia Handamir, Annalena Limentani, Federico Fellini, Massimo Mida; Som: Ovidio Del Grande, Valerio Secondini; Companhias de produção: Organizzazione Film Internazionali (OFI), Foreign Film Productions; Intérpretes: Carmela Sazio (Carmela), Robert Van Loon (Joe, o soldado americano), Benjamin Emanuel, Raymond Campbell, Harold Wagner, Albert Heinze, Merlin Berth, Mats Carlson, Leonard Parrish (todos no episodio I: Sicilia); Dots Johnson (Joe, o MP americano), Alfonsino Pasca (Pasquale (todos no episodio II: Napoli); Maria Michi (Francesca), Gar Moore (Fred, o soldado americano), (no episodio III: Roma); Harriet Medin (Harriet, enfermeira), Renzo Avanzo (Massimo) (no episodio IV: Firenze); William Tubbs (capitão Bill Martin) (no episodio V: Appennino Emiliano); Dale Edmonds (Dale, o agente OSS), Allan (soldado americano), Dan (soldado americano), Roberto Van Loel (soldado alemão), Cigolani (resistente) (todos no episodio VI: Porto Tolle), e ainda Giulio Panicali (narrador), Iride Belli, Lorena Berg, Pippo Bonazzi, Gianfranco Corsini, Leslie Daniels, Fattori, Elmer Feldman, Gigi Gori, Newell Jones, Giulietta Masina (jovem no episodio IV: Firenze), Carlo Pisacane, etc. Duração: 126 minutos; 134 minutos (versão restaurada); Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes; Data de estreia em Portugal: 21 de Janeiro de 1949.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

SESSÃO 1 - ROMA, CIDADE ABERTA



ROMA, CIDADE ABERTA (1945)

“Ossessione” é de 1943, “La Terra Trema: Episodio del Mare” é de 1948, ambos de Visconti. “Roma, Città Aperta”, de 1945, traz a assinatura de Roberto Rossellini. Indiscutivelmente, são estes os três filmes mais importantes a marcarem o início do chamado neo-realismo. Mas desde logo as diferenças são algumas, bem assim como as características comuns. Neste caso, uma enorme necessidade de falar de temas simples e populares, de trazer para o ecrã o povo que dali andava arredado; a falta de meios que impunha um cinema pobre, tecnicamente imperfeito, mas esteticamente depurado, eticamente honesto, politicamente intencional; a utilização de actores não profissionais. Entre as diferenças, estas eram de raiz ideológica, ainda que nos primeiros tempos a união contra o invasor nazi e o fascismo mussoliniano disfarçassem as divergências. Um Visconti aristocrata e marxista, ao lado de um Fellini religioso mas libertário, um De Sica humanista, um Rossellini metafísico e democrata cristão, um Zavatini ou um Guiseppe De Santis abertamente comunistas são algumas das opções que logo se destacaram.
Rossellini é dos casos mais desconcertantes deste grupo. Inicialmente documentarista, assina depois três filmes que ficaram conhecidos pela sua “trilogia fascista”, “La Nave Bianca” (1941), “Un Pilota Ritorna” (1942) e “L'Uomo dalla Croce” (1943) (rodados na época do fascismo italiano, com fundos dos organismos oficiais e largamente premiados pelas entidades mussolinianas), passando imediatamente após a Libertação a uma nova “trilogia da guerra”, com “Roma, Cidade Aberta”, “Libertação” e “Alemanha, Ano Zero”, todos eles bem enquadrados no neo-realismo.
Durante uns tempos, o reconhecimento de Rossellini não foi unânime (ainda hoje não o é), tendo mesmo sido acusado de ter “passado do fascismo para a democracia cristã” por alguma crítica mais ortodoxa. Mas com o aparecimento dos “Cahiers du Cinéma” e de André Bazin, Truffaut, Rivette e alguns mais, Rossellini não foi só reabilitado, como colocado no lugar de mestre incontestável da modernidade, cineasta farol de um novo cinema. Nenhum outro cineasta italiano mereceu tantos elogios dos franceses desta corrente como Rossellini.
Em 1944 pode dizer-se que a indústria italiana de cinema tinha sido completamente destruída, não existiam estúdios, nem material técnico, nem laboratórios, nem sequer quantidade suficiente de uma mesma película para uma longa-metragem. Quando, em 1995, a “Cineteca Nazionale” restaurou o negativo de “Roma, Cidade Aberta” percebeu que o original era composto por três tipos de película: Ferrania C6, em exteriores, Agfa Super Pan e Agfa Ultra Rapid em interiores. Mesmo dentro de cada tipo de película existiam consideráveis alterações de densidade. Nenhuma unidade de tom era possível. Mas, um pouco também por causa disso, o que resultaria daí ofereceria uma tonalidade documental que agradava bastante ao autor.
Quando a II Guerra Mundial entrava nos seus últimos meses, Rossellini abandonava a realização de um filme, “Desiderio”, pois não tinha condições para o terminar (haveria de ser concluído por Marcello Pagliero, em 1946). Rossellini, porém, queria filmar a história de um padre católico, Don Pieto Morosini, que tinha sido fuzilado pelos nazis por ter auxiliado alguns resistentes italianos. O actor Aldo Fabrizi era o preferido para interpretar este papel e Rossellini, amigo de Fellini, pede a este para interceder junto do actor por forma a poder contar com a sua colaboração. Havia ainda a hipótese de rodar um documentário sobre o papel das crianças italianas na luta contra o opressor. Fellini e Sergio Amidei convencem Rossellini a reunir os dois projectos e escreveram um argumento ficcionado sobre estes temas. Estávamos em Agosto de 1944, dois meses depois das tropas norte-americanas terem libertado Roma da ocupação nazi. “Roma, Città Aperta” seria o cenário. Rossellini queria sinceridade máxima, autenticidade, total ausência de efeitos, nenhuma espectacularidade, actores predominantemente não profissionais, recrutados na rua, um olhar sem complacência. As falhas técnicas funcionariam como elemento estilístico, seria um cinema pobre, a película era comprada em pequenas quantidades, de qualidade desigual, por vezes sem qualidade, sem prazos de validade. Rodava-se com a luz natural, ou quase. A realidade sem subterfúgios. Roma devastada sem retoques. O povo italiano perante a tirania brutal do invasor, os resistentes em confronto com a opressão, o sentir do cidadão comum ao lado do guerrilheiro e frente ao oficial alemão. As crianças em magotes a fazer explodir o que pudessem. Comunistas, como o engenheiro que é denunciado por uma italiana vendida por um casaco de peles, lado a lado com padres católicos que os escondem em conventos. Mulheres indomáveis que gritam a dor e são assassinadas friamente com tiros de rajadas, no meio das ruas. Torturas intoleráveis e fuzilamentos sumários. “Roma, Città Aperta” quando os nazis sentem apertar à sua volta a ofensiva aliada e recrudescer a actividade dos “partigiani”, quando a batalha individual enxameia as ruas romanas, quando o sangue se verte generosamente em nome da liberdade, numa altura em que a luta é unitária.
Quando da sua estreia, a recepção italiana não foi entusiástica. O público não queria voltar a encarar a tragédia de que apenas saía, em condições traumáticas. Mas, fora de Itália, nos EUA ou em França, a recepção foi de triunfo crítico e mesmo popular. Juntamente com outras obras, como “Sciusciá”, “Ladrões de Bicicletas”, “A Terra Treme”, chamou a atenção para a cinematografia italiana e para o que se ficaria a conhecer por neo-realismo. Rossellini aproveitou a onda para tentar explicar que alguns filmes seus anteriores, como “La Nave Bianca”, já apresentavam características semelhantes às de “Roma, Cidade Aberta”, procurando deste modo justificar ter sido ele o verdadeiro criador desta corrente, o que alguns outros, nomeadamente os críticos marxistas, Aristarco, De Santis, Verdone, entre outros, não aceitam plenamente. Para estes, o neo-realismo era uma questão moral, mas era igualmente uma questão política, onde a luta de classes não podia deixar de figurar. Rossellini tinha uma perspectiva diversa, para ele bastava apresentar a realidade na sua simplicidade, na sua secura, para se atingir um quase estado de graça, que muitas obras suas ulteriores iriam confirmar.
De resto, num elenco quase sem actores, Aldo Fabrizi é um padre de uma humanidade e doçura extrema, que consegue todavia arrostar com o seu calvário com a maior dignidade, Anna Magnani, uma mulher que se celebraria, a partir daí, como símbolo da “mamma Roma”, com um desempenho que tornaria a sua presença algo de absolutamente inesquecível (sobretudo a tão citada cena de rua em que é alvejada), e Marcello Pagliero (que, além de actor, foi ainda argumentista e realizador), um resistente admirável na obstinácia com que enfrenta a tortura e a dor.
Finalmente, ainda em 1946, o Festival de Cannes atribui o Grande Prémio ao filme e o Sindacato Nazionale dei Giornalisti Cinematografici Italiani confere o Nastro d'Argento a esta obra, considerando-a a melhor italiana do ano, bem assim como o prémio de Melhor Actriz Secundária a Anna Magnani, igualmente em 1946. Na América, o National Board of Review premeia “Roma, Cidade Aberta”, com o prémio de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Anna Mangani como Melhor Actriz, e o New York Film Critics Circle Awards, considera-o igualmente o Melhor Filme em Língua Estrangeira no ano de 46.

ROMA, CIDADE ABERTA
Título original: Roma, Città Aperta

Realização: Roberto Rossellini (Itália, 1945); Argumento: Sergio Amidei, Federico Fellini, Roberto Rossellini, Sergio Amidei, Alberto Consiglio; Produção: Giuseppe Amato, Ferruccio De Martino, Rod E. Geiger, Roberto Rossellini; Música: Renzo Rossellini; Fotografia (p/b): Ubaldo Arata; Montagem: Eraldo Da Roma, Jolanda Benvenuti; Design de produção: Rosario Megna; Direcção de produção: Ferruccio De Martino, Mario Del Papa; Assistentes de realização: Sergio Amidei, Federico Fellini; Som: Raffaele Del Monte; Efeitos visuais: Stefano Ballirano, Stefano Camberini, Pablo Mariano Picabea, Paolo Verrucci, Stefanacci; Companhias de produção: Excelsa Film; Intérpretes: Aldo Fabrizi (Don Pietro Pellegrini), Anna Magnani (Pina), Marcello Pagliero (Giorgio Manfredi / Luigi Ferraris), Vito Annichiarico (Piccolo Marcello), Nando Bruno (Agostino), Harry Feist (Major Bergmann), Giovanna Galletti (Ingrid), Francesco Grandjacquet (Francesco), Eduardo Passarelli, Maria Michi, Carla Rovere. Carlo Sindici, Joop van Hulzen, Ákos Tolnay, Caterina Di Furia, Laura Clara Giudice, Turi Pandolfini, Amalia Pellegrini, Spartaco Ricci, Doretta Sestan, Alberto Tavazzi, etc. Duração: 100 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes; Data de estreia em Portugal: 13 de Outubro de 1947.

ROBERTO ROSSELLINI (1906-1977)



ROBERTO ROSSELLINI (1906-1977)

Roberto Gastone Zeffiro Rossellini nasceu em Roma, a 8 de Maio de 1906, e viria a falecer na mesma cidade, a 3 de Junho de 1977, com 71 anos. Casado com Assia Noris (1934-1936, anulado), Marcella De Marchis (1936-1950, divórcio), Ingrid Bergman (1950-1957, divórcio) e Sonali Senroy DasGupta (1957-1977, morte de Rossellini). Filhos: Romano Rossellini, Renzo Rossellini (segundo casamento), Roberto Rossellini, Isabella Rossellini, Isotta Rossellini (terceiro casamento), Gil Rossellini (quarto casamento).
Habitando na Via Ludovici, originário de uma família da média burguesia romana, onde a música, o teatro e a cultura em geral tinham destacado lugar, Roberto Rossellini tinha como pai Angiolo Giuseppe Rossellini, conhecido como Beppino Rossellini, um notório arquitecto, senhor de certo prestígio e fortuna, que beneficiava ainda do apoio de um rico tio empresário, Roberto Zeffiro Rossellini. Beppino era também dado às artes e construiu em Roma um teatro onde se podia igualmente projectar filmes - diz-se que foi mesmo a primeira sala romana com esta ambivalência. O Cinema Barberini, inaugurado em 1930, projectado por Marcello Piacentini, e ainda hoje aberto ao público, agora em sala multiplex, depois de algumas obras, fica localizado na Piazza Barberini, perto do famoso Hotel Bristol, ao lado da Via Veneto, tendo em frente a fonte do Tritão, da autoria de Bernini.
O jovem Roberto Rossellini, que tinha três irmãos mais novos, Renzo, Marcela e Micaela, assistia, portanto, a tudo quanto passava nessa sala, ganhando o gosto pelo cinema. O seu primeiro emprego, ainda jovem, foi como captador de som para filmes, passando depois a outras tarefas na mesma área, tendo ganho experiência que lhe foi decisiva no futuro.
Fala-se de um primeiro casamento com uma actriz de origem russa, mas naturalizada italiana, Assia Noris, mas foi declarada a nulidade do mesmo. Em 1936, casa com Marcella de Marchisqui, figurinista, especializada sobretudo em guarda-roupa para cinema. Deste casamento nasceram dois filhos, Marco Romano (1937) e Renzo (1941), o primeiro dos quais morreu tragicamente, com um ataque de apendicite, enquanto criança ainda. O filme “Germania, Anno Zero” era dedicado a esse filho, Romano.
Outra curiosidade importante para situar o percurso biográfico do futuro cineasta foi o facto da casa dos pais se encontrar perto do hotel de Benito Mussolini. Roberto privou desde jovem com Vittorio Mussolini, filho do ditador, que mais tarde teria um importante papel na condução da cinematografia italiana, sob a inspiração fascista. A estreia de Rossellini na realização dá-se em curtas-metragens, “Daphne” (1936), a que se seguiram, em 1938, “Prélude à l'Après-midi d'un Faune”, proibida pela censura, acusada de falta de pudor, e, em 1939, “Fantasia Sottomarina”. Em 1938, foi assistente de Goffredo Alessandrini na escrita de “Luciano Serra pilota”, que ganha o Prémio Mussolini para o melhor filme italiano, no Festival de Veneza, e teve um enorme sucesso de público. Em 1940, foi assistente de Francesco De Robertis na realização de “Uomini sul Fondo”. Passa então à realização, assinando três obras de propaganda fascista que se inscrevem na sua filmografia como a “Trilogia Fascista” (1941-1944) (curiosamente, um texto publicado nos “Cahiers du Cinéma”, intitulado “Dix ans de Cinéma”, passa em claro este período e estas obras): “La Nave Bianca” (1941), é uma encomenda do Centro Cinematográfico do Ministério da Marinha, que ganhou o Prémio do Partido Fascista, “Un Pilota Retorna” (1942) e “Uomo dalla Croce” (1943). Por essa época, estabelece-se uma forte amizade com Federico Fellini e o actor Aldo Fabrizi.
Quando o regime fascista começa a desmoronar-se, em finais de 1943, dois meses antes da queda de Roma, Rossellini começa a preparar as filmagens de “Roma, Città Aperta”, com a colaboração de Fellini e de Aldo Fabrizi, que irá interpretar o principal papel masculino, ao lado de Anna Magnani. O filme, produzido pelo próprio, com economias pessoais e empréstimos, estreia em 1945, passa relativamente desapercebido na estreia italiana, mas recebe o Grande Prémio de Cannes e é triunfalmente acolhido em França e nos EUA, sucesso que se reflecte então em Itália.
Em 1946, realiza “Paisà”, com actores não profissionais, e em 1948 “Germania anno zero”, filmado no sector francês de Berlim, produzido por um francês. Continua a preferir trabalhar com actores não profissionais e explica a razão: “Para criar uma personagem que temos em mente é necessário ao argumentista estabelecer uma verdadeira batalha com o actor, que muitas vezes acaba com o argumentista a submeter-se aos desejos do actor. A fim de não delapidar a minha energia numa batalha como essa, escolho actores profissionais apenas de tempos a tempos”.
Rossellini roda seguidamente “L'Amore” (que compreende dois filmes de média metragem, “La Voix Humaine”, segundo Cocteau, e “Le Miracle”, segundo Fellini), de novo com Anna Magnani, com quem estabeleceu uma tumultuosa relação amorosa, e “La Macchina Ammazzacattivi”.
Em 1948, Rossellini recebe uma carta de Ingrid Bergman, que na altura tinha Hollywood aos pés, sobretudo depois de “Casablanca”. Rezava assim: “Caro M. Rossellini, Vi os seus filmes “Roma, Cidade Aberta” e “Païsa”, e gostei muito deles. Se tiver necessidade de uma actriz sueca que fala muito bem inglês, que não esqueceu o seu alemão, que não se faz compreender muito bem em francês, e que em italiano nada mais sabe dizer senão “ti amo”, então eu estou pronta a ir fazer um filme consigo”. Assinava, Ingrid Bergman. Sem pensar duas vezes, presumo eu, Rossellini convida Ingrid Bergman para interpretar “Stromboli, Terra di Dio”, cujas filmagens decorreram na isolada ilha de Stromboli. Era o primeiro título de um novo ciclo, este dedicado a Ingrid Bergman, e que, além de “Stromboli” agrupa ainda “Europa 51”, “Viaggio in Italia”, “O Medo” e “Giovanna d'Arco al Rogo”. Era igualmente o início de um idílio que iria dar muito que falar. Rossellini e Ingrid eram casados, a sua relação deu brado por todo o mundo, a actriz ficou grávida, sob as fagulhas do Stromboli, as ligas de decência insurgiram-se, a América ficou chocada, repudiaram os adúlteros, e Ingrid Bergman ficou na lista negra de Hollywood. Casaram-se em 1950. O romance durou sete anos. Em 1957, Rossellini partiu para a Índia, para rodar uma série de documentários para a televisão, e uma longa, e aí conheceu uma argumentista indiana, Sonali Dasgupta, casada com um realizador de documentários, mãe de filhos, e rebenta outro escândalo, este com uma tonalidade muito oriental. O casal parte para Itália, Sonali traz o filho, que Rossellini adopta, deixa a filha com o pai, e pouco depois nasce Gil Rossellini. Viveram juntos até à morte de Rossellini, em 1977.
Cinematograficamente, os escândalos da vida pessoal e o insucesso das obras para televisão arruinaram a reputação de Rossellini. Não havia produtor que lhe concedesse liras para um filme, até que consegue rodar “O General Della Rovere”, em 1959, uma obra-prima que ganha prémios em festivais internacionais, Veneza finalmente!, e o projecta de novo como grande mestre. Seguem-se “Era Notte a Roma”, de novo sobre a II Guerra Mundial, e duas peliculas históricas, “Viva l’Italia” (1960) e “Vanina Vanini” (1961). Mas Rossellini não gosta do “espectáculo”, prefere o cinema pedagógico e acerca-se da televisão educativa para rodar uma série de documentários ficcionados sobre personalidades históricas, como “L’ Etá del Ferro”, “Benito Mussolini”, “La Prise du Pouvoir par Louis XIV” (excelente exercício), “La Lotta dell’Uomo per la Sopravvivenza”, “Atti degli Apostoli”, “Socrate”, “La Forza e la Ragione”, “Blaise Pascal”, “Agostino d’Ippona”, “L’Età di Cosimo de Medici”, “Cartesius”, “Anno Uno”, “Il Messia”, entre outros. O seu derradeiro filme data de 1977, e documentava “Beaubourg, Centre d’Art et de Culture George Pompidou”. Para lá do cinema e da televisão, ainda encenou diversas peças de teatro, escreveu vários importantes textos sobre cinema, e colaborou em argumentos para outros cineastas, nomeadamente para Godard, “Les Carabiniers”.
Entre 1968 e 1974, dirigiu o Centro Sperimentale di Cinematografia. Morreu em Roma, a 3 de Junho de 1977, com 71 anos, de crise cardíaca.


FILMOGRAFIA:
Cinema
1935: DAFNE (curta-metragem)
1937: PRÉLUDE À L'APRÈS-MIDI D'UN FAUNE (curta-metragem)
1938: FANTASIA SOTTOMARINA (curta-metragem)
1939: LA VISPA TERESA (curta-metragem)
1940: IL TACCHINO PREPOTENTE (curta-metragem)
1941: IL RUSCELLO DI RIPASOTTILE (curta-metragem)
1941: LA NAVE BIANCA
1942: UN PILOTA RITORNA
1943: L'UOMO DALLA CROCE
1943: DESIDERIO (filme iniciado por Rossellini em 1943, com o título "Scalo merci" e concluído em 1946 por Marcello Pagliero)
1945: ROMA, CITTÀ APERTA (Roma, Cidade Aberta)
1946: PAISÀ (Libertação)
1948: GERMANIA ANNO ZERO (Alemanha, Ano Zero)
1948: L'AMORE
1949: L'INVASORE, de Nino Giannini e Roberto Rossellini (supervisão)
1950: STROMBOLI TERRA DI DIO (Stromboli)
1950: FRANCESCO, GIULLARE DI DIO (O Santo dos Pobrezinhos)
1952: LA MACCHINA AMMAZZACATTIVI)
1952: I SETTE PECCATI CAPITALI (Pecados Mortais), de Yves Allégret, Claude Autant-Lara, Eduardo De Filippo, Jean Dréville, Georges Lacombe, Carlo Rim, e Roberto Rossellini (episódio “L’Envy” ou"L’Envie” )
1952: EUROPA '51 (Europa 51)
1953: SIAMO DONNE, de Gianni Franciolini, Alfredo Guarini, Roberto Rossellini (episódio "Ingrid Bergman"), Luchino Visconti, Luigi Zampa
1953: RIVALITÀ, de Giuliano Biagetti e Roberto Rossellini (supervisão)
1954: DOV'È LA LIBERTÀ? (Onde Está a Liberdade?)
1954: VIAGGIO IN ITALIA (Viagem em Itália))
1954: ANGST (O Medo)
1954: AMORI DI MEZZO SECOLO, de Mario Chiari, Pietro Germi, Glauco Pellegrini, Antonio Pietrangeli, Roberto Rossellini (episódio "Napoli 1943")
1954: GIOVANNA D'ARCO AL ROGO
1957: INDIA MATRI BUHMI (documentário)
1959: IL GENERALE DELLA ROVERE (O General Della Rovere)
1960: ERA NOTTE A ROMA (Era Noite em Roma)
1961: VIVA L'ITALIA (Viva Itália)
1961: VANINA VANINI (Vanina Vanini)
1962: ANIMA NERA
1963: RO.GO.PA.G., de Jean-Luc Godard, Ugo Gregoretti, Pier Paolo Pasolini, Roberto Rossellini (episódio "Illibatezza")
1974: ANNO UNO
1976: IL MESSIA (O Messias)

Televisão
1959: L’INDIA VISTA DA ROSSELLINI (mini-série)
1961: TORINO NEI CENT'ANNI
1962: I CARABINIERI
1962: BENITO MUSSOLINI
1964: L'ETÀ DEL FERRO
1967: IDEA DI UN'ISOLA
1967: LA PRISE DE POUVOIR PAR LOUIS XIV (A Tomada do Poder por Luis XIV)
1968: ATTI DEGLI APOSTOLI
1970: SOCRATE
1970: LA LOTTA DELL'UOMO PER LA SUA SOPRAVVENZA, de Renzo Rossellini
1970: DA GERUSALEMME A DAMASCO
1971: INTERVISTA A SALVADOR ALLENDE: LA FORZA E LA RAGIONE
1971: RICE UNIVERSITY
1971: BLAISE PASCAL
1972: AGOSTINO D'IPPONA
1973: L'ETÀ DI COSIMO DE MEDICI (mini-série)
1973: CARTESIUS
1974: A QUESTION OF PEOPLE, de Beppe Cino, “From filming by Roberto Rossellini”
1974: CONCERTO PER MICHELANGELO
1977: BEAUBOURG, CENTRE D'ART ET DE CULTURE GEORGES POMPIDOU

Argumentista (em filmes que não foram de sua autoria)
1938: LUCIANO SERRA PILOTA, de Goffredo Alessandrini
1963: LES CARABINIERS, de Jean-Luc Godard
1967: LA LUTTE DE L'HOMME POUR SA SURVIE

Algumas obras de cinema e televisão onde aparece (testemunhos, entrevistas, biografias, etc.: 
1959: L'India vista da Rossellini (TV, mini-série de TV)
1960: Cinépanorama (Série de TV, documentário)
1960: Project XX (Série de TV, documentário)
1964: Roberto Rossellini: appunti biografici (TV, documentário)
1965: L'età del ferro (Série de TV, documentário)

1967: Toast of the Town (Série de TV)