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domingo, 19 de fevereiro de 2017

O GRITO



O GRITO (1957)

Cineasta da “alienação”, como era considerado, com justeza, aliás, pela generalidade da crítica nos anos 60, Antonioni afasta-se, todavia, de uma análise esquemática e maniqueísta da sociedade e das suas crises, por um aprofundar dos sentimentos individuais e um estudo da sua deterioração progressiva, em confronto com essa mesma sociedade. Isso é já manifesto em obras como “Cronaca di Un Amore” ou “La Signora Senza Camelie”, menos em “As Amigas”, mas torna-se mais claro numa película como “O Grito”, uma das suas obras-primas indiscutíveis, um título que é um marco na sua filmografia, antecedendo, e dando ligação à sua tetralogia imediata, que o irá impor como um dos maiores cineastas do pós-guerra.
Análise de uma crise, estudo minucioso de uma desagregação emocional, “O Grito” abre novas perspectivas ao cinema italiano, caldeando, em imagens sublimes, a interioridade de uma personagem e o clima social de um tempo. Admirável, como a fotografia, a preto e branco, de Gianni Di Vennanzo.
Interessante será reavivar a recepção crítica que uma tal obra teve na época da sua estreia. Analisar “crises existenciais” e turbulências emocionais, com recurso a adultérios, traições, solidões e suicídios, era tarefa que se reservava à burguesia em perda de valores ou em perturbação identitária. Colocar um operário nessa condição não seria insólito (veja-se o caso de “Obsessão”, de Visconti, que é muito anterior a “O Grito”), mas não deixava de ser preocupante, sobretudo para aqueles que achavam que a classe operária devia ocupar-se sobretudo de movimentos sociais reivindicativos, de grandes projectos colectivos, esquecendo os casos pessoais e os dramas individuais. 


Numa crítica pertinente de Manuel Pina, publicada aquando da estreia de "O Grito", rebatendo os frágeis e esquemáticos raciocínios de Guido Aristarco (historiador do cinema indubitavelmente importante, mas demasiado manietado por um método crítico que não lhe permitia analisar em profundidade o que se estava a processar na Itália, no declinar da década de 50), podia ler-se: "Nos filmes anteriores de Antonioni estivemos sempre em presença de uma crise; mas até aqui as histórias situavam-se na burguesia. Parece não se perdoar a Antonioni tornar extensivo à classe operária o conceito de alienação. A verdade é que existe uma diferença: ao passo que nos filmes anteriores a crise nos era dada como situação normal, aqui ela apresenta-se-nos como excepção no meio de indivíduos empenhados em tarefas de outro tipo, mas a excepção que representa Aldo não é tão pouco generalizada que não mereça atenção; e, acima de tudo, torna-se particularmente importante pelas consequências que pode acarretar".
E mais adiante: "Por isso não me parece acidental, como pretende Aristarco, a escolha de um operário para figura central da história. Antonioni fê-lo deliberadamente, com o intuito de provar a falsidade do raciocínio elementar que pretende que a consciência de um indivíduo é rigidamente determinada pela classe a que pertence. Esta é de resto também a opinião de Renzi. "O Grito" oferece-se assim como uma demonstração do que pode acontecer quando um indivíduo, incapaz de resolver o conflito indivíduo-sociedade, coloca em primeiro plano os seus problemas pessoais: tal indivíduo fugirá sempre sistematicamente à necessidade da escolha, e o caminho que percorre conduzi-lo-á necessariamente à autodestruição".


Estas longas citações colocam-nos imediatamente no centro do problema levantado por "II Grido". Depois de ter sido abandonado pela amante (Irma), Aldo, um operário especializado de uma fábrica de açúcar da planície do Pó, deixa a sua aldeia natal, acompanhado pela filha. Deambula ao longo do rio, visita uma antiga namorada, vive depois durante alguns dias com a proprietária de uma bomba de gasolina, finalmente com uma prostituta. A todas abandona, regressando à sua aldeia, onde vem a saber que Irma tem já um filho de outro homem. Ao atravessar o povoado, verifica que os seus antigos colegas andam envolvidos em manifestações contra a expropriação de uns terrenos locais. Aldo, porém, está cansado. Ele próprio o confessa. Por seu turno, os antigos companheiros já nada têm a ver com ele. Um deles chega a dizer-lhe: "Depois falarei contigo. Agora tenho outras coisas que fazer". Tornado um estranho para si e para os outros, Aldo sobe ao alto da sua antiga torre e suicida-se. O grito de Irma não acusará eco. Lá longe, a multidão continuará a correr noutra direcção.
Análise de uma crise, "O Grito" é seguramente um dos melhores filmes de Michelangelo Antonioni. Embora cientes da importância de obras futuras, como "A Noite", "O Eclipse", "O Deserto Vermelho” ou "Blow-Up", embora admitindo uma ulterior depuração estilística, a verdade é que "O Grito" permanece com um lugar à parte, destacando-se pela sua sinceridade narrativa, por todo esse longo caminho que conduzirá o protagonista à sua autodestruição, depois de ter atravessado as paisagens lamacentas e enevoadas do delta do Pó. O cineasta da lucidez (como se lhe chamou) já ultrapassa em "O Grito" as coordenadas de um realismo estático, atento unicamente aos grandes momentos da história italiana. Com "II Grido", Antonioni abre novas perspectivas à cinematografia italiana, paralisada sob as novas ameaças do neo-capitalismo. Como consequência directa da mutação da realidade social italiana nos últimos anos, haveria que fazê-la acompanhar por idêntico processo crítico. Isso tentou Antonioni. Poucas vezes, porém, com a clareza e a simplicidade expositiva deste "O Grito", que, por si só, bastava para impor a reputação de um dos maiores cineastas contemporâneos.
Indissociavelmente ligados aos propósitos do autor vamos encontrar todos os elementos constitutivos da obra. A fotografia de Gianni di Vennanzo, a montagem de Eraldo da Roma, a música de Giovanni Fusco, ou a interpretação, tudo se conjuga de forma a oferecer ao espectador uma imagem aproximada de um estado psicológico e social.



O GRITO
Título original: Il Grido

Realização: Michelangelo Antonioni (Itália, 1957); Argumento: Michelangelo Antonioni (ideia), Elio Bartolini, Ennio De Concini; Produção: Franco Cancellieri, Danilo Marciani, Ralph Pinto; Música: Giovanni Fusco; Fotografia (p/b): Gianni Di Venanzo; Montagem: Eraldo Da Roma; Direcção artística: Franco Fontana; Guarda-roupa: Pia Marchesi; Assistente de realização: Luigi Vanzi; Som: Vittorio Trentino; Companhias de produção: SpA Cinematografica, Robert Alexander Productions; Intérpretes: Seteve Cochran, Alida Valli, Dorian Gray, Betsy Blair, Lynn Shaw, Gabrieíla Pallota, Gaetano Mattencci, Guerrino Campanii, etc. Produção: Franco Cancellie-ri/SPA Cinematográfica; Intérpretes: Steve Cochran (Aldo), Alida Valli (Irma), Betsy Blair (Elvia), Gabriella Pallotta (Edera), Dorian Gray (Virginia), Lynn Shaw (Andreina), Mirna Girardi (Rosina), Pina Boldrini (Lina), Guerrino Campanilli, Pietro Corvelatti, Lilia Landi, Gaetano Matteucci, Elli Parvo, etc. Duração: 102 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes (DVD); Classificação etária: M / 12 anos; Data de estreia em Portugal: 9 de Outubro de 1958.

MICHELANGELO ANTONIONI (1912-2007)


MICHELANGELO ANTONIONI (1912-2007)

Michelangelo Antonioni nasceu em Ferrara, a 29 de Setembro de 1912. Filho de Elisabetta e Carlo Antonioni, uma família da média burguesia. Estuda Economia em Bologna e regressa depois a Ferrara, ingressando no jornalismo. Tempos depois, em Roma, inscreve-se no Centro Experimental de Cinema, colaborando, simultaneamente, em diversas publicações, nomeadamente na revista “Cinema”. Em 1942 inicia o seu trabalho no cinema, como assistente de Enrico Fulchignoni ("I Due Foscari") e também de Marcel Carné, em "Os Trovadores Malditos" ("Les Visiteurs du Soir"). A partir dessa altura dedica-se abertamente ao cinema, escrevendo diversos argumentos para películas dirigidas por outros, ao mesmo tempo que começa a realizar as suas primeiras obras, ainda no domínio da curta-metragem. Como argumentista colaborou em "Il Due Foscari", de Enrico Fuíchignoni (1942), "Um Pilota Ritorna", de Roberto Rossellini, "Caccia Trágica", de Guiseppe de Santis (1947) e "O Sheik Branco" (Lo Sceicco Bianco), de Frederico Fellini (1952).
Como realizador de curtas-metragens assinou "Gente del Po" (1943-1947); "Netteza Urbana" (1948), "L'Amorosa Menzogna" (1949), "Superstizione" (1949), "La Funicia dei Faloria" (1949), "Sete Canne, Un Vestito" (1949), "La Villa dei Mostri" (1950) e "Uomini ín Piu" (1955).
Entretanto, em 1950, dirige o seu primeiro filme de fundo; "Escândalo de Amor" (Cronaca di un Amore), a que se seguem, nesta fase inicial, dominada por um certo ambiente neo-realista, "os Vencidos” (I Vinti, 1952), "A Dama sem Camélias" (La Signora senza Camelie, 1953), "Tentado Suicídio", episódio do filme em "sketches" "Retalhos da Vida" (L'Amore in Cittá, (1953), "As Amigas” (Le Amiche, 1955) e "O Grito" (II Grido) que culminará, de forma brilhante, este período.
“L'Avventura” (1960) foi o seu primeiro grande sucesso, e igualmente o que maior escândalo provocou a quando da sua estreia no festival de Cannes, onde foi apupado e maltratado, alcançando, todavia, no final o Prémio do Júri. “A Aventura” iniciava um ciclo prolongado depois por “La Notte” (1961) e “L'Eclisse” (1962), que reflecte sobre o tema da alienação e estabelece uma original ligação entre personagens e paisagem urbana. Com “Il Deserto Rosso” (1964) mantem o seu tema obsessivo, mas agora utilizando a cor como elemento dramático decisivo. Monica Vitti que aparece em três destes quatro filmes, torna-se na sua musa inspiradora e sua companheira na vida real. Trata-se de um ciclo “Monica Vitti” na obra de Antonioni, tanto mais que ambos são companheiros na vida real.
Seguidamente, Antonioni envereda por uma carreira internacional, pesquizando a realidade em diversos pontos do globo: “Blowup” (1966), rodado em Inglaterra, é um grande sucesso de público e crítica, nomeadamente por algumas cenas arrojadas de nudez e sexo. É considerado um dos primeiros filmes pop, pela forma como aborda diferentes universos, como a moda, a publicidade, a fotografia, etc. “Zabriskie Point” (1970), ambientado nos Estados Unidos, fala-nos da contra-cultura e de movimentos alternativos, com uma banda sonora onde surgem Pink Floyd, Grateful Dead e os Rolling Stones. A seguir viaja até à China para em 1972 filmar “Chung Kuo” que posteriormente seria recusado pelas autoridades chinesas. “The Passenger” (1975), com Jack Nicholson e Maria Schneider, viajava por Africa e terminava em Barcelona. De 1980  é “Il Mistero di Oberwald”, segundo Cocteau, assinala o seu interesse pelas novas técnicas digitais, sendo rodado directamente em vídeo, de novo com Monica Vitti. “Identificazione di una Donna” (1982) mantém algumas das suas obsessões temáticas e o seu fascínio pela mulher.
Em 1985, um acidente vascular-cerebral deixou-o parcialmente paralítico e quase impossibilitado de falar. No entanto, ajudado por Wim Wenders, seu admirador e amigo, realiza “Al di là delle Nuvole” em 1995. Nesse mesmo ano, é-lhe atribuído um Oscar pelo conjunto da sua obra. A sua derradeira contribuição para o cinema foi um episódio em “Eros” (2004), realizado juntamente com Wong Kar-Wai e Steven Soderbergh.
Michelangelo Antonioni morre a 30 de Julho de 2007, aos 94 anos, no mesmo dia em que na Suécia morre Ingmar Bergman. Encontra-se sepultado no Cimitero della Certosa, em Ferrara, sua terra natal.


Filmografia:
Curtas-metragens:
1943: Gente del Po
1948: Nettezza urbana            
1948: Oltre L'oblio                  
1948: Roma-Montevideo                      
1949: L'Amorosa menzogna                  
1949: Sette cani e un vestito               
1949: Bomarzo            
1949: Ragazze in bianco                      
1949: Superstizione                 
1950: La villa dei mostri                      
1950: La Funivia del Faloria     

Longas-metragens       
1950: Cronaca di un amore (Escândalo de Amor)
1952: I Vinti (Os Vencidos)
1953: La Signora senza Camelie (A Dama Sem Camélias)
1953: Tentato Suicido (episódio de Amore in Citta)
1955: Le Amiche (As Amigas)
1957: Il Grido (O Grito)
1960: L'Avventura (A Aventura)
1961: La Notte (A Noite)
1962: L'Eclisse (O Eclipse)
1964: Il Deserto Rosso (Deserto Vermelho)
1965: Prefazione - episode in I Tre Volti (As três faces de uma mulher)
1966: Blowup (História de um Fotógrafo)
1970: Zabriskie Point (Zabriskie Point)
1972: Chung Kuo                     
1975: Professione: Reporter (Profissão: Repórter)
1980: Il Mistero di Oberwald (O Mistério de Oberwald)
1982: Identificazione di una Donna (Identificação de uma Mulher)
1992: Volcanoes and Carnival              
1995: Al di là delle Nuvole (Além das Nuvens) (co-dirigido por Wim Wenders)              
2004: Eros (Eros) (episódio de Il filo pericoloso delle cose)
2004: Lo Sguardo di Michelangelo        

Prémios e nomeações:
Nomeação ao Óscar de Melhor Realizador, por "Blow Up" (1966).
Nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original, por "Blow Up" (1966).
Óscar Honorário, em 1995, em reconhecimento da sua carreira no cinema.
Nomeação ao BAFTA de Melhor Filme, por "L'Avventura" (1960).
Nomeação ao BAFTA de Melhor Filme Britânico, por "Blow Up" (1966).
Prémio especial em 1993 no European Film Awards, em reconhecimento da sua carreira no cinema.
Prémio Bodil de Melhor Filme Europeu, por "Profissão: Repórter" (1975).
Palma de Ouro no Festival de Cannes, por "Blow Up" (1966).
Duas vezes Prémio do Júri no Festival de Cannes, por "L'Avventura" (1960) e "L'Eclisse" (1962).
Prémio do 35º Aniversário no Festival de Cannes, por "Identificazione di una donna" (1982).
Urso de Ouro no Festival de Berlim, por "La Notte" (1961).
Prémio FIPRESCI em 1961, no Festival de Berlim, em reconhecimento à sua carreira no cinema.
Leão de Ouro no Festival de Veneza, por "Il Deserto Rosso" (1964).
Leão de Prata no Festival de Veneza, por "As Amigas" (1955).
Duas vezes Prémio FIPRESCI no Festival de Veneza, por "Il Deserto Rosso" (1964) e "Par Dela Les Nuages" (1995).
Leão de Ouro honorário no Festival de Veneza, em 1983.
Grand Prix Especial das Américas, no Festival de Montreal, em 1995.

Prémio FIPRESCI de Curta-Metragem no Festival de Valladolid, por "Lo Sguardo di Michelangelo" (2004).

RETALHOS DA VIDA


RETALHOS DA VIDA (1953)
Zavattini

“Retalhos da Vida” (L'Amore in Città) é uma obra invulgar que surgiu no interior do movimento neo-realista italiano, concebida por um dos chefes de fila desta corrente estética e ideológica, o argumentista e realizador Cesare Zavattini (apoiado na iniciativa pelo jovem Marco Ferreri), com a intenção de funcionar como obra manifesto desta corrente. O filme apresenta-se como o número um de uma revista semestral cinematográfica, "Lo Spettatore", que reúne no seu seio um grupo de seis trabalhos “jornalísticos” sobre o amor numa grande cidade. Cada um desses trabalhos era assinado por um nome grande da renascença do cinema italiano do pós-guerra, a saber: “L’Amore che si Paga” (Carlo Lizzani), “Paradiso per Quattro Ore” (Dino Risi), “Tentato Suicidio” (Michelangelo Antonioni), “Agenzia Matrimoniale” (Federico Fellini), “Storia di Caterina” (Francesco Maselli e Cesare Zavattini), e “Gli Italiani si Voltano” (Alberto Lattuada). A ideia era obviamente permitir um retrato da sociedade italiana desse período histórico, particularmente dos residentes na cidade de Roma, da vida sofredora da maioria dos seus habitantes, dos pequenos e grandes dramas, das alegrias e das esperanças de um povo ainda muito traumatizado pela ditadura fascista de Mussolini e a subsequente tragédia da II Guerra Mundial. Há episódios de um dramatismo pungente, outros aparentemente mais ligeiros, uns nostálgicos, outros irónicos, uns trabalhados em estilo de quase pura ficção, a maioria esboçada em tom de inquérito ou reportagem. Há muita ingenuidade na forma como se procura atingir uma realidade imaculada, não encenada, quando afinal tudo é encenado e por vezes de forma que inquina totalmente os resultados da proposta. Por exemplo, o episódio assinado por Alberto Lattuada, “Gli Italiani si Voltano”, coloca um operador, de câmara na mão, nas ruas de Roma, acompanhando as mulheres que passam pelos passeios. Assim se procura demonstrar que os “italianos se voltam” sempre que vêem passar uma mulher bonita e voluptuosa. Mas as reacções dos italianos que se voltam, muitas vezes voltam-se mais para ver a câmara de filmar, e quem ela acompanha, do que propriamente para olhar as espaventosas italianas. Acontece que, mesmo que a câmara de filmar estivesse escondida (há quem afirme que este episódio foi um dos antepassados da “Candid Camera”), pelo menos ela não estava suficientemente oculta, pois há inúmeros transeuntes que se voltam manifestamente para ela, e só depois para a mulher que é filmada. O que retira qualquer significado sociológico ao registo, apesar de não lhe retirar um sabor muito latino. 


Apesar do título ser “L'Amore in Città” (O Amor na Cidade, tradução literal), fala-se muito pouco de amor, sequer de paixão, raras vezes se afloram sentimentos, mas sim o olhar do desejo, a confirmação do interesse sexual, ou as consequências trágicas da solidão, do desespero, do desengano.
Não querendo exaustivamente enunciar as características do neo-realismo, é conveniente sublinhar algumas delas, para situar esta obra. O neo-realismo nasce de considerandos e de situações diversas que se reúnem: o cinema italiano foi, durante a época fascista, ou um cinema de propaganda do sistema, ou um cinema de fuga à realidade. Os cineastas que estavam com o fascismo, elogiavam-no, os que não estavam ou frontalmente se lhe opunham tentavam trabalhar na sua arte nos limites das possibilidades sem se comprometerem, criando um cinema “caligrafista”, de sofisticadas comédias de “telefones brancos”, ou então adaptando obras literárias do século XIX, que tinham muito pouco a ver com a realidade italiana dos anos 30 e 40, até final da guerra. Quando se aproxima o fim da guerra e a possibilidade de falar de temas proibidos até aí, o fascismo, a guerra, a resistência, o drama diário do povo italiano, este foi o caminho. Mas a esta orientação ideológica (muito condicionada pelos comunistas que tinham saídos vitoriosos da coordenação da Resistência), outra se lhe juntou igualmente muito motivadora da escolha do caminho. Após a derrota, a Itália estava completamente destruída, a indústria cinematográfica não existia, não havia estúdios, não havia material técnico, não havia actores e realizadores (alguns dos que havia ou estavam comprometidos com o fascismo, ou envelhecidos, ou em fuga…), não havia capital para obras sumptuosas. Da reunião destes dois factores, nasceu um cinema ideologicamente não muito coerente, apesar da forte orientação marxista, mas que se podia caracterizar por aspectos muito significativos para definir um movimento ou uma corrente: filmagens fora dos estúdios, em exteriores ou interiores naturais, pouco material técnico, uso quase exclusivo de película a preto e branco, quase total ausência de actores profissionais, lançamento de uma nova geração de cineastas, saídos da resistência intelectual e cultural ao fascismo, temas da vida do dia-a-dia, assunção de uma voz nova nos ecrãs, o povo autêntico, sem caracterização ou guarda-roupa especial. Esta foi a revolução imposta um tanto pelas disponibilidades técnicas da época e do local, outro tanto pela intencionalidade política, social, cultural e sobretudo cinematográfica.


Em 1945 surge “Roma, Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini, que inicia formalmente o movimento. Mas antes já tinham aparecido alguns antecedentes, como “Bambini ci Guardano”, de Vittorio De Sica, “Ossessione”, de Luchino Visconti, ou “Quattro Passi fra la Nuvole”, de Alessandro Blasseti, todos de 1943. “L’Amore in Citta”, de 1953, aparece num momento em que o movimento se começa já a esboroar. Procura como que reunir forças e esforços e redefinir com mais precisão as linhas estéticas e ideológicas da corrente. Mas não tem sucesso público (ainda que permaneça até hoje como um farol do neo-realismo) nem consegue sequer iniciar uma publicação regular. "Lo Spettatore" fica-se pelo número um. Representa, no entanto, uma ocasião única na história do cinema italiano: olhando agora com o recuo do tempo para esta obra, facilmente nos apercebemos que tenta reunir talento para um projecto comum, numa altura em que cada um dos cineastas antologiados enceta já um caminho muito pessoal que não os levará a atraiçoar o neo-realismo, mas acima de tudo a serem sinceros consigo próprios e a seguirem percursos muito pessoais. É o que irá acontecer sobretudo com Antonioni, Fellini, Risi, Lattuada ou Masselli, enquanto Zavattini e Lizzani ficaram enredados nas teias de uma época e não conseguiram ultrapassar a rígida ortodoxia vigente. Curiosamente, muitos acusaram Risi de se deixar comercializar e de transformar o neo-realismo em algo “rosa”. Hoje ele é um dos cineastas mais modernos e mais actuais dessa geração. Soube respirar a atmosfera do seu tempo, compreender o ar que se respirava e estabelecer com o público um diálogo que se mantém hoje actual.
Olhando o filme, história a história, “Amore che paga”, de Carlo Lizzani (11') é um inquérito sobre a prostituição na capital italiana, que a censura proibiu na altura; “Tentato suicídio”, de Michelangelo Antonioni (22') investigava igualmente casos de mulheres que haviam tentado o suicídio, indagando razões e motivações, em cenários desolados que prenunciavam já os ambiente de “A Noite”, “Eclipse” ou “O Deserto Vermelho”; “Agenzia Matrimoniale”, de Federico Fellini (16') mergulhava numa viagem por um antigo palacete romano arruinado, hoje com cada quarto ocupado por famílias pobres, escritórios, e uma agência matrimonial, onde os “patrões” “colocam” mulheres em desesperadas procuras de necessidade económica e solidão. Uma delas, que aceita casar com quem quer que seja, desde que arrume a sua vida, é acompanhada pelo jornalista de serviço numa dolorosa e poética viagem de profunda desolação, relembrando já o universo de “A Estrada”; “Storia di Caterina” (27'), de Francesco Maselli e Cesare Zavattini, baseia-se num caso verídico e é interpretada pela mulher que viveu a história na realidade e que aqui revive os passos: grávida e abandonada pelo homem que dela se serviu e pela família, tenta a sua sorte como criada em Roma. Sem forma de se sustentar, a si e ao filho, dormindo ao relento e quase nada tendo para comer, resolve abandonar o filho num descampado, onde é recolhido e entregue num asilo dirigido por freiras. Não consegue resistir às saudades e tenta recuperar o filho, o que a leva à prisão e a julgamento, donde sai absolvida; de “Gli Italiani si Voltano” (14'), de Alberto Lattuada, já falámos, ficando para fim o “Paradiso per Tre Ore”, de Dino Risi (11') que sobrevive sem história, descrevendo o ambiente de um baile de bairro periférico de Roma, frequentado ao domingo, durante “as três horas de paraíso”, por criadas de servir e soldados, “arrebentas” e “pintas” à procura de conquistas fáceis, secretárias “postas por conta” e outros protagonistas desta “crónica de pobres amantes”. A câmara de Risi acompanha com humor e ternura o que vai captando, atenta ao pormenor, ao gesto, ao olhar, criando um tecido de intensa cumplicidade e sensualidade. Os actores não profissionais são excelentemente conduzidos (ou apenas seguidos, mas com tacto e eficácia) e alguns deles prenunciavam alguns dos heróis preferidos de Risi, de Gassman a Sordi, em pólos opostos deste universo de arrivistas e temeratos. Juntamente com Fellini, os melhores “Retalhos”, onde Antonioni e Zavattini se colocam ainda a bom nível. Lattuada fará muito melhor ao longo da sua futura carreira. Boa a fotografia daquele que se haveria de transformar num dos mestres da arte em Itália, Gianni Di Venanzo.



RETALHOS DA VIDA
Título original: L’ Amore in città

Realização: Michelangelo Antonioni (segmento "Tentato suicido"), Federico Fellini (segmento "Un Agenzia matrimoniale'"), Alberto Lattuada (segmento "Gli Italiani si voltano"), Carlo Lizzani (segmento "L’ Amore che si paga'"), Francesco Maselli (segmento "Storia di Caterina"), Dino Risi (segmento "Paradiso per 4 ore"), Cesare Zavattini (segmento "Storia di Caterina") (Itália, 1953); Argumento: Michelangelo Antonioni / segmento "Tentato suicidio"; Aldo Buzzi / segmentos "Tentato suicidio", "Gli Italiani si voltano", "Amore che si paga, L'" e "Paradiso per 4 ore"; Luigi Chiarini / segmentos "Tentato suicidio", "Gli Italiani si voltano" e "L’ Amore che si paga”, Federico Fellini / segmento "Un Agenzia matrimoniale”, Marco Ferreri / segmento "Paradiso per 4 ore", Alberto Lattuada / segmento "Gli Italiani si voltano", Luigi Malerba / segmentos "Tentato suicidio", "Gli Italiani si voltano", "L’ Amore che si paga" e "Paradiso per 4 ore", Tullio Pinelli / segmentos "Tentato suicidio", "Un Agenzia matrimoniale'", "Gli Italiani si voltano", "L’ Amore che si paga" e "Paradiso per 4 ore", Dino Risi / segmentos "L’ Amore che si paga",e "Paradiso per 4 ore", Vittorio Veltroni / segmentos "Tentato suicidio", "Gli Italiani si voltano", "L’ Amore che si paga'" e "Paradiso per 4 ore", Cesare Zavattini / segmentos "Tentato suicidio", "Gli Italiani si voltano", "Storia di Caterina", "L’ Amore che si paga” e "Paradiso per 4 ore"; Produção: Marco Ferreri, Riccardo Ghione, Cesare Zavattini; Música: Mario Nascimbene; Fotografia (p/b): Gianni Di Venanzo; Montagem: Eraldo Da Roma; Design de produção: Gianni Polidori; Maquilhagem:Raimondo Van Riel; Direcção de produção: Giuseppe Lo Prete, Alfredo Mirabile; Assistentes de Realização: Aldo Buzzi Francesco Degli Espinosa, Otto Pellegrini, Pier Paolo Piccinato, Gillo Pontecorvo, Luigi Vanzi; Departamento de arte: Enrico Magretti; Som: Mario Messina, Giovanni Paris; Companhias de produção: Faro Film; Intérpretes: Rita Josa, Rosanna Carta, Enrico Pelliccia, Donatella Marrosu, Paolo Pacetti, Nella Bertuccioni, Lilia Nardi, Lena Rossi, Maria Nobili, Antonio Cifariello Giornalista, Livia Venturini, Maresa Gallo, Angela Pierro, Rita Andreana, Lia Natali, Cristina Grado, Ilario Malaschini, Sue Ellen Blake, Silvio Lillo (segmento "Un Agenzia matrimoniale'"), Caterina Rigoglioso (segmento "Storia di Caterina"), Mara Berni, Valeria Moriconi, Giovanna Ralli, Ugo Tognazzi, Patrizia Lari, Raimondo Vianello, Edda Evangelista, Liana Poggiali, Marisa Valenti, Maria Pia Trepaoli, Marco Ferreri, Mario Bonotti (segmento "Gli Italiani si voltano"), Luisella Boni, etc. Duração: 105 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal (DVD): inexistente; Edição DVD: Studio Canal (italiano com legendas em inglês).